hqr.x.Anexo 06 – Gauche na vida – Mauro Arcanjo
Publicado no site ParouTudo.com em 12.10.2004
Autorização de uso: ComH Comunicação
“Teologia Queer propõe uma visão de mundo sem excluir minorias sexuais“.
Se em alguma época de sua vida, se na infância ou adolescência, você se sentiu fora do eixo, sem encaixe, seja na família ou na sociedade, talvez você seja queer. Mas, o que seria um indivíduo queer?
Queer é tudo aquilo que não se inclui, que está fora, para além da ordem. Implica transgressão, indefinição ou desarmonia. Não é ambíguo, equivocado, mas também não compreende sentido exato.
O movimento Queer surgiu em Londres e Nova York no fim do século 20. Lá, a Cultura Queer adquiriu projeção na política e no comportamento, mas o termo acabou associado aos gays. Esse conceito, dada a excentricidade e inovação, ganhou status acadêmico e passou a originar uma corrente doutrinário-filosófica denominada Teologia Queer.
A Teologia Queer abole todo e qualquer pensamento excludente. Visa resgatar não só os pobres, mas também os sexualmente excluídos. Prega a existência de um deus multifacetado e contesta o caráter ideológico heterossexual dos livros sagrados. Em suma, defende uma fé que abrigue a diversidade sexual, que não imponha a igualdade entre os seres, e, sim, respeite suas diferenças.
Uma de suas propostas é entender como os diferentes grupos sexuais lidam com o sagrado, qual a sua concepção de Deus. Há muito o modelo proposto pelas principais religiões monoteístas entrou em desuso. O mundo pós-moderno não se organiza mais em torno da família e da dualidade. Na teoria queer, chega-se ao consenso não pela imposição de dogmas, mas pelo diálogo aberto, pelo acolhimento propriamente dito. Afinam seu discurso com o de gays e lésbicas, bissexuais e transgêneros.
Entre os tantos comportamentos sexuais “condenáveis”, um dos mais defendidos pelos teólogos “queerianos” é a bissexualidade. Estes defendem o sexo multíplice e livre de tabus. Crêem que, do mesmo modo que gays e lésbicas não devem ser discriminados, eles também não o façam. Afinal, se o deus “queeriano” não se limita à definição de uma identidade fixa, suas criaturas também não. Portanto, há espaço para todos, excluídos ou não.
O ponto mais polêmico é a não-adoção de uma identidade sexual divina. Na teologia “queeriana” Deus não representa o pai, o que contrapõe o princípio de que o criador é representado por uma entidade masculina. Critica também as feministas que defendem o contrário, a divinização da mulher, pois isto não apresentaria uma mudança estrutural, e, sim uma troca de papéis. Feministas pregam a mãe ao invés do pai. Buscam igualar os gêneros quando o ideal seria considerar as diferenças e fortalecê-las. Os conflitos entre os gêneros e seus papéis sociais são, portanto, os maiores causadores de contendas dentro das religiões segundo “queerianos”.
Igualmente abolidas pelos “queers”, demonstrações de homofobia e misoginia complementam a cartilha doutrinária das três grandes religiões monoteístas conhecidas: judaísmo, cristianismo e islamismo. A mulher é impura e o sexo entre iguais é carregado de abominação. O homem foi divinizado, à mulher atribuiu-se um papel ruinoso, a representação do vício. Um exemplo do quão nocivo é o pensamento desse segmento são as denúncias de aborto em conventos e pedofilia por parte do clero católico. Não houvesse discriminação entre homens e mulheres, talvez a Igreja promovesse a comunhão que tanto apregoa, já que, para judeus e muçulmanos a mulher fica em segundo plano ou mesmo plano nenhum.
A teologia queer, embora escândalo para os conservadores, vem propor uma visão de mundo onde “minorias sexuais” não sejam relegadas, vistas como personas non gratas e possam não só participar ativamente da sociedade mas, da mesma forma, legitimar seus direitos civis. Tudo o que é queer atrita com a tradição religiosa e seu representativo no Estado. Um representativo que fala em nome de Deus, mas não age como prescrito por Ele. Que bane, ultraja e se assoberba diante daqueles que considera inferiores por estarem em menor número ou por não disporem de meios de defesa eficazes.
Portanto, minoria ou não, já somos uma comunidade na aldeia global. Há muito deixamos de nos ilhar, de sofrer sanções. Temos a nosso favor não só uma bandeira, uma luta. Agora temos doutrina, uma filosofia e, quem sabe, estejamos a um passo, o primeiro passo em direção à terra prometida onde emanam leite e mel para os considerados esquisitos, queers.”
http://www.paroutudo.com/colunas/arcanjo/041012_arcanjo_queer.htm
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- 10.08.07 / 6pm
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- homo (queer remixed)
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