hqr.x.Anexo 03 – Paraíso das Maravilhas – Luiz Morando

Professor do curso de Letras lança livro sobre o crime do Parque
(Mariana Oliveira – curso de Jornalismo FAFI-BH)

O professor do curso de Letras Luiz Morando lança neste sábado, 20, livro sobre o crime do Parque, ocorrido em 1946 no Parque Municipal de Belo Horizonte. A obra é fruto de um trabalho de pesquisa de quatro anos. Nesse período, o docente levantou dados de materiais jornalísticos, da Hemeroteca do Arquivo Público Mineiro e do processo judicial do crime. Luiz Morando também entrevistou moradores da cidade na época e jornalistas que se envolveram com a cobertura do caso. Foi feito um levantamento de informações do ambiente urbano das décadas de 40, 50 e 60, com enfoque no Parque Municipal.

O livro recebe o nome de Paraíso das maravilhas: uma história do crime do Parque. Paraíso das Maravilhas é uma região no Parque, onde foi encontrado o corpo da vítima. À noite, o local era transformado em espaço de sociabilidade e trocas homossexuais. Partindo do caso do crime do Parque, a obra apresenta uma etnografia do grupo de homossexuais presente em Belo Horizonte a partir da década de 40.

De acordo com o professor Luiz Morando, a motivação de escrever o livro “foi a tentativa de analisar, pela exposição do crime do Parque, como o Paraíso das Maravilhas e as relações entre seus freqüentadores, constituíram-se em um ponto para o qual converge uma mentalidade típica da capital mineira no que toca à forma de representar e enxergar a homossexualidade masculina”.

O autor do livro ressalta que sua importância está em despertar um foco de pesquisa sobre a formação de identidades homoeróticas na cidade e tentar perceber traços comuns ou diálogos com outros grandes centros. O professor Luiz Morando é mestre em Literatura Brasileira e doutor em Literatura Comparada pela UFMG.

Paraíso das Maravilhas: uma história do crime do Parque é uma publicação da Argvmentvm Editora.

O crime do Parque

Em 5 de dezembro de 1946, foi encontrado, no Parque Municipal de Belo Horizonte, o corpo de um homem, assassinado com 28 facadas. A vítima era Luiz Gonçalves Delgado, paulista que, na época, trabalhava em uma companhia de mineração na capital mineira. As investigações policiais acabaram por relacionar o crime à vida íntima de Luiz Gonçalves, enxergando uma motivação passional em uma vida silenciosa e clandestina para a época. A vítima era homossexual e realizava, no Paraíso das Maravilhas, seus desejos homoeróticos.

De 1946 a 1953, as investigações foram em vão. Embora o caso despertasse muita atenção da população, nada foi descoberto. Alguns foram apontados como culpados, mas nada foi provado. Em 1953, uma mulher de nome Yedda Lúcia Escobar denunciou seu marido, Décio Frota Escobar, como culpado pelo crime. Segundo a esposa, o marido confessou o feito a ela pela frustração de um casamento fracassado. Décio foi preso, mas, em abril de 1954, foi absolvido. Dois anos mais tarde, ele foi assassinado por garotos de programa no Rio de Janeiro. O crime do Parque nunca foi solucionado.

Ecos do escândalo
Luiz Morando resgata o Crime do parque, que abalou BH nos anos 1940, em livro que analisa o comportamento da sociedade mineira
Eduardo Tristão Girão – EM Cultura

Caso cercado de mistério até hoje, o Crime do parque, que abalou Belo Horizonte em 1946, é o ponto de partida para investigação profunda do professor Luiz Morando, autor do livro Paraíso das maravilhas (Argvmentvm), que será lançado sábado, na Livraria da Travessa. Em 5 de dezembro daquele ano, o corpo do paulista Luiz Gonçalves Delgado foi encontrado com 28 facadas no Parque Municipal, no Centro da capital mineira. O fato despertou a curiosidade da sociedade e motivou muitos boatos e hipóteses. Suspeitos foram apontados. Culpados, nunca.

As investigações policiais ligaram o crime à vida íntima da vítima, supostamente homossexual. À noite, a região do Parque Municipal era freqüentada por homossexuais, que a chamavam de Paraíso das maravilhas. O caso permaneceu sem evidências de maior relevância até 1953, quando Yedda Lúcia Ribas Escobar denunciou o marido, o poeta Décio Frota Escobar, como o assassino de Delgado – o que confirmava a motivação passional. Ela declarou que ele havia confessado a autoria do crime. Décio foi preso e, no ano seguinte, absolvido em júri popular. Quinze anos depois, foi assassinado no Rio de Janeiro por garotos de programa.

“A primeira grande surpresa que tive ao começar a trabalhar no livro foi descobrir essa rede social de homossexuais que se formou no Parque Municipal e o seu próprio código. Não imaginava que pudesse existir um lugar como este e que seria tão determinante na história. O que me despertou a atenção foi usar o crime para explicar a formação dessa rede na cidade”, afirma o autor. “Cheguei a pensar que Décio fosse o assassino, mas não há provas suficientes contra ele. Trabalhou com teatro e sabia criar uma forma ambivalente de se relacionar com as pessoas”, completa.

O livro levou quatros anos para ficar pronto, incluindo pesquisas em jornais e revistas mineiros e nacionais, publicados entre 1946 e 1969, leitura dos cinco volumes do processo judicial do caso e de outros dois processos de assaltos a homossexuais no Parque Municipal em 1947, além de entrevistas com pessoas que viveram na cidade na época e com jornalistas que cobriram o julgamento de Décio Escobar.

Crime cometido em 1946, no Parque Municipal, vira livro
RENATO FONSECA – Repórter

Em meados da década de 1940, enquanto o antigo Teatro Municipal ganhava o nome de Cine Metrópole, em homenagem a Belo Horizonte, e exibia clássicos como Casablanca, de Michael Curtiz, ocorria na capital mineira um assassinato que também merecia ganhar espaço nas telas do cinema. Um crime nunca esclarecido, uma história intrigante e o envolvimento da alta sociedade são os elementos que poderiam compor o roteiro. Sessenta e dois anos depois, a morte brutal do engenheiro químico Luiz Gonçalves Delgado, perfurado por 28 facadas, no Parque Municipal, no coração da cidade, ainda desperta interesse e está detalhada no livro «Paraíso das Maravilhas: uma história do crime do parque», que terá lançamento amanhã no local que serviu de cenário para o homicídio.
O assassinato, ocorrido em 5 de dezembro de 1946, repercutiu além das «Alterosas», tornando-se um dos pratos principais de toda a imprensa nacional por longo período. O caso ainda é cercado de mistério e ficou conhecido como «Crime do parque». Até 1953, as investigações foram frustrantes. A polícia acreditava que o crime tivesse ligação com a vida íntima da vítima, supostamente homossexual. Na época, o poeta Décio Frota Escobar foi apontado como o principal suspeito, após ser acusado pela ex-mulher Yeda Lúcia Ribas. Com a acusação oficial, estava formada prova suficiente para a prisão preventiva de Décio, que ficou detido por quase um ano. No julgamento, ele foi absolvido devido à insuficiência de provas. Em 1969, Escobar foi assassinado no Rio de Janeiro por garotos de programa.
O crime do parque despertou atenção e curiosidade da população. O dentista João Castro Silva, 83 anos, lembra-se com detalhes do fato, que motivou boatos e hipóteses. Ele disse que, em 1941, veio morar com a irmã no Bairro Carlos Prates, Região Noroeste de Belo Horizonte. Em 1946, aos 21 anos, ele conta que freqüentava esporadicamente a Área Central da cidade, mas se recorda que o principal assunto na capital era o homicídio do parque. «Todo mundo sabia do fato e todos queriam saber o que tinha acontecido», revela o aposentado, que até hoje cita detalhes como nomes e datas. «Sei que foi em dezembro de 1946 e que o rapaz morto se chamava Delgado. Já o acusado, era um tal de Escobar».
A imprensa não perdeu tempo e escancarou o fato. Segundo os relatos, na época, não houve um dia sequer em que o assunto não saísse estampado nos jornais. O jornalista José Maria Rabelo, 80 anos, que trabalhava no extinto Diário de Minas, participou ativamente da cobertura do julgamento de Escobar. Ele foi responsável por dois dos maiores furos de reportagem publicados sobre o caso. Rabelo foi até Barbacena, na Região Central, para encontrar a empregada da casa de Escobar. «Ela me disse que no dia do assassinato, o suspeito apareceu em casa com a roupa suja de sangue e ordenou a ela que ficasse quieta e não contasse nada para ninguém». O jornalista hospedou a mulher por uma semana em sua casa, em Belo Horizonte. Nem os colegas de redação de José Maria Rabelo sabiam da história. «Somente a chefia tinha conhecimento. Precisávamos preservar nossa fonte».
Além de publicar os relatos da empregada, o jornalista afirma ter sido o primeiro a conseguir falar com Escobar, por telefone, quando o mesmo estava na Bolívia. «Um dia resolvi ligar para a embaixada brasileira na Bolívia e, por pura sorte, ele estava lá. Conversamos e ele jurou que não tinha envolvimento com o crime», diz. José Maria não tem dúvidas de que Escobar foi autor do homicídio. «Foi ele sim. Isso, para mim, é muito claro», observa o jornalista, que já teve a oportunidade de conhecer o livro de Luiz Morando e aprovou a obra. «É muito rico em detalhes e fiel a tudo que aconteceu».


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