hqr.e.03 – homo (queer remixed) – texto introdutório
‘Homossexual’ é muito pesado. ‘Gay’ está bem como slogan, palavra de ordem, um termo para descrever nossa filosofia, nossa atitude em relação à vida. Mas não, creio eu, como título para o movimento. Eu prefiro as palavras usadas por nossos inimigos. (…) Eu agora gosto de ‘queer’ ou ‘fag’ [bicha] quando me sinto hostil. Assusta os heterossexuais quando você se refere a si mesmo com essas palavras se eles as têm usado pelas suas costas, e eles normalmente o fazem”
(Cristopher Isherwood)
A mostra “homo (queer remixed)”, com módulos realizados em Brasília e Goiânia, tem a curadoria e projeto expositivo de Hugo Siqueira. Procura aliar informações sobre o movimento queer e homo art e trabalhos contemporâneos brasileiros de artistas que transitariam por esse universo.
“Queer” em inglês quer dizer estranho, esquisito, algo que difere do convencional ou da norma. Pode ser usado de forma pejorativa ou mesmo ofensiva, em particular para se referir a homossexuais. Entretanto, nas últimas duas décadas, a palavra vem sendo apropriada por homossexuais e acadêmicos de forma afirmativa, em processo, aliás, semelhante ao ocorrido com o termo “gay” (literalmente, “alegre” ou “exuberante”). Entretanto, o tom provocativo de Isherwood na citação acima ilustra a novidade do “queer”: para além de definir uma identidade, o termo implica um questionamento da norma e do normal, uma atitude de ativa contestação. É impossível traduzir “queer” por equivalentes diretos: é necessária longa paráfrase para contextualizar a carga negativa original e o significado político de sua recente apropriação.
Em português o termo “queer” é ainda utilizado, sobretudo no meio acadêmico, normalmente associado aos “estudos queer”, que se poderia traduzir de forma imperfeita por “estudos sobre a homossexualidade”. Como disciplina, os “queer studies” estão associados ao debate sobre gênero e, de modo mais amplo, aos estudos culturais. A “teoria queer” surge no ambiente intelectual de língua inglesa, apoiando-se porém na teoria pós-estruturalista francesa, em particular no desconstrutivismo de Jacques Derrida e nas obras sobre sexualidade de Michel Foucault. Para os teóricos “queer”, interessa questionar e desestabilizar a falsa dicotomia heterossexualidade/homossexualidade, que define – opondo e hierarquizando – sujeitos e relações sociais na sociedade contemporânea.
Vale lembrar que, no inglês, o termo “queer” é também muito utilizado como forma curta para se referir a quaisquer indivíduos – e sexualidades – que fogem à regra dominante: gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, transexuais… Assim, uma mostra de “arte queer” reuniria obras feitas por autores GLBT, ou cuja temática é de seu interesse direto. Utilizado desta forma, a expressão perde força, ou mesmo razão de ser: torna-se um simples rótulo, que limita mais do que identifica artistas e suas obras. Ou, pior, serve como mera descrição de nicho de mercado. Desta forma, esta mostra não pretende delimitar fronteiras. Busca-se mais um “modo queer de ver o mundo” do que a conceituação e a catalogação.
Nas palavras de Guacira Lopes Louro, “mais do que uma identidade, queer sinaliza uma disposição ou um modo de ser e de viver” . A “arte queer” seria aquela que se identifica com uma postura transgressiva e de contestação das classificações e normas. Parafraseando Foucault, é uma arte que inventa relações, modos de vida, valores, formas de troca entre indivíduos que sejam realmente novas, uma arte que só tem sentido a partir de uma experiência sexual e de um tipo de relações que lhe seja próprio . A ambigüidade e a fluidez da sexualidade e das formas de representação: eis o que interessa à “arte queer” explorar – e remixar.
A escolha dos artistas procurou aliar representatividade a disponibilidade de trabalhos. A internet foi um suporte privilegiado, seja pela facilidade de acesso (artistas, pesquisa, público), seja pelo seu caráter self-made e remix.
As experimentações na sobreposição de suportes e os questionamentos do movimento remix (uma apropriação de obras alheias que dão origem a um novo e independente trabalho, de tradição antropofágica), somam-se a referências desse “modo queer” de lidar com rótulos, tão caro ao curador. Para Ed Coheh , o slogan dos teóricos queer deveria ser: “fodemos com categorias”.
Além disso, apresenta trabalhos enquanto colecionador e artista, seja na condição de “dj” da mostra como uma remixagem/releitura de obras alheias, seja no papel de “produtor” da obra.
A exposição de arte é um espaço para múltiplas atividades, discursos e suportes. Sua realização, além de caráter artístico, é indissociável de certo cunho político. É arte resultante da provocação e provocação resultante da arte.
homo (queer remixed)
brasília/goiânia/www
2007/2009
www.circular.art.br – idéias foram feitas para circular
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(1) O filósofo mexicano Bolívar Echeverría comenta tal “incomensurabilidade semântica” referindo-se a uma diferença profunda entre o contexto histórico-cultural do puritanismo anglo-saxão e o catolicismo latino-americano. Adverte contra a transferência do termo, e da problemática que o envolve, entre culturas que constroem de modos tão diversos a noção do “outro”, do “desviante” ou “a-normal”. ECHEVARRÍA, Bolívar. “Queer, manierista, bizarre, barroco”. In: Debate Feminista, N.16, 1997, (http://www.bolivare.unam.mx/miscelanea/queer.html)
(2) LOURO, Guacira Lopes: “O ‘estranhamento’ queer”. comunicação apresentada no Fazendo Gênero 2006, Simpósio temático: “A violência material e simbólica” (http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys11/libre/guacira.htm)
(3) Extraído de “O triunfo do prazer sexual: uma conversação com Michel Foucault”. In: MOTTA, Manuel de Barros (org.). Michel Foucault: Ética, sexualidade, política [Ditos & escritos, V]. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
(4) apud MORTON, Donald: “El nacimiento de lo ciberqueer”. In: JIMÉNZ, Rafael M.Mérida. Sexualidades Transgressoras. Uma antologia de estúdios queer. Barcelona: Içaria Editorial, 2002, p.118.
(Texto: Saulo Ceolin e Hugo Siqueira)
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- 21.08.07 / 7am
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